Alguém lá em cima gosta de mim

Segunda-feira, o despertador toca, com um salto frango se lança da cama. Estava empolgado, eufórico, pois seria seu primeiro dia na auto- escola. Dava para ver na cara do galináceo a seu entusiasmo, tinha acabado de completar seus 18 anos e estava louco para tirar carteira de habilitação.
Cristiano Machado, esse seria o seu maior desafio, atravessar a pista do meio da vulgarmente conhecida "engenharia assassina" . sinal vermelho para os carros, o "bonequinho" estava verde para os pedestres, o malasiano segue em direção à auto-escola no meio de sua travessia esbarra em uma senhora, olha para trás, pede desculpas, segue seu caminho, ao chegar ao centro da pista um ônibus ultrapassa o semáforo e pega o galináceo de jeito. Vidros voam por todos os lados, a pobre e franzina ave é lançada contra o asfalto. Gritaria, desespero (mesmo em coma a ave malasiana consegue atrair toda atenção para si). Seu irmão que ainda não havia arrancado o carro assistiu toda a cena. Desesperado, correu em direção a pista do meio. Sua cunhada que também os acompanhavam começa a passar mal e desmaia, mas é acudida pelo seu outro cunhado que a acolhe em seus braços. O circo estava armado, buzinas, sirenes, pessoas falando, xingando, a pista ficou cheia de populares, um mais bico que o outro. O resgate não demorou muito para chegar, colocaram o frango dentro da ambulância, seu irmão o acompanhou. No percurso a ave tentou se despedir três vezes deste mundo, tento três paradas cardíacas, mas foi reanimado com choque pelo paramédicos. Coitado, havia fraturado três costelas, a clavícula, a coluna, tido um traumatismo craniano, estava parecendo um frango desossado.
O galináceo vê uma luz, abre os olhos meio que ainda sonolento, vê ao seu redor vários aparelhos ligados ao seu corpo. Tinha até aquela máquina de fazer "pim" quem ninguém sabe para que serve. Havia retornado do coma de seis dias. Não sabia muito bem o que fazia ali, tenta mover as pernas, mas é inútil, com muito custo ergue o braço esquerdo, todos correm em direção de seu leito, felizes, pois, ele estava melhor. Seu pai passa a chave do carro em seu pé e pergunta: "sentiu isso?" frango estava meio lerdo mas ainda tinha uma piadinha guardada em sua manga. E retruca: "o que? Se eu senti essa chave gelada? Quase que eu levanto e saio correndo". Seu pai sorri vê que o malasiano estava voltando a si. Confuso frango pergunta o motivo de estar ali. Sua mãe toda jeitosa tenta explicar que ele havia sido atropelado. ele pergunta o que havia lhe atropelado. Seu pai curto e grosso diz: "um ônibus meu filho". Ele pergunta qual ônibus tinha sido. Seu pai responde: "foi o palmital". Ele da um sorriso, e fala: "poxa?! Não poderia Ter sido o belvedere? Sujei muito de poeira?" todos ali não sabiam se riram se choravam. O médico brinca: " é... já te posso dar alta, já está ate fazendo piadinhas". Os meses que ficou internado recebeu muitas visitas, uns porque gostavam dele, outros queriam ver se era verdade que ele havia sobrevivido. A cena era hilária, os visitantes entravam no quarto com aquela cara de marmita mal lavada, meio sem graça, e saiam dali rindo. Uma piadinha já havia tornado-se clássica, quando lhe perguntavam como estava ele respondia: "um pouquinho atropelado."
Frango recebe a visita de uma psicóloga do hospital, ela tenta lhe explicar que ele teria que passar por uma operação, e cheia de conversa mole tenta passar um mel na chupeta. o médico entra em seu quarto, recolhe um envelope que se encontrava na parte dianteira da cama. Analisa, passa a mão no queixo e usando a psicologia de um refinado médico diz: " é meu velho, você vai Ter que entrar na faca". O galináceo entra em desespero, só então entende que vai ser operado. Frango( no sentido lato) como sempre, morre de medo. Começa a rezar, orar à Deus, suplica que sua mãe( nossa senhora) interceda junto ao pai(deus) por ele. Pede que não seja operado pelos homens, mas sim por Deus. O remédio que havia tomado mais cedo faz efeito e galináceo cai no sono.
abre os olhos, está em uma maca, seguia para mesa de operação, sua mãe encontrava-se na capela do hospital rezando um terço, seu pai do outro lado da cidade orava. O malasiano não sentia mais medo, algo havia lhe acalmado, confiante que não seria necessário o uso do bisturi em seu corpo. O preceptor retira do envelope a radiografia, com cara de espanto diz: " essa radiografia não é sua" frango estranha. O médico para pensa e diz: "pelo sim pelo não vamos tirar outra", tiram outra chapa. O médico se assusta mais ainda com voz tremola diz: "mas como? Não entendo", olha para a ave estirada sobre a mesa de operação e diz: " pode retornar ao seu quarto meu jovem, você é um mistério da ciência, e um milagre de Deus". Os olhos do malasiano se enchem de lágrimas ele olha para cima e diz: "eu sabia que podia confiar". Retorna ao seu quarto sua mãe já estava lá. Olhando pela janela e segurando um terço em uma de suas mãos, seu pai chega logo em seguida e afirma: "você não foi operado.", sua mãe retruca: "foi sim, por um médico superior a qualquer um dos outros".
Fim.

